domingo, fevereiro 02, 2014

E sobre as praxes... acham que dá para deixarem de ser acéfalos?

Anda toda a gente a falar sobre praxes por causa do que aconteceu no Meco. Não se sabe se o lamentável episódio teve alguma coisa a ver com praxes mas foi suficiente para lançar a polémica.
Na maior parte dos casos, a praxe não é mais que um grupo de miúdos a fazerem figuras de parvos. E estão todos convictos que a humilhação a que estão a ser sujeitos é um ritual de iniciação importante na sua vida. Defendem o curso deles como se fosse o clube de futebol e o nível de boçalidade dos cânticos e a rivalidade com os restantes cursos está ao nível das claques. É triste vermos que os universitários se comportam como Super Dragões... ou No-Name Boys... ou Juve Leo... não interessa. Na sua essência, tratam-se de grandes grupos de criaturas básicas com sinais evidentes de atavismo. Talvez isso explique que quem mais sobe na hierarquia da praxe seja quem tem mais matrículas. Se os veteranos não manifestassem este atavismo, provavelmente tinham acabado o curso a tempo.
Sempre achei descabido que exista uma hierarquia na faculdade em que os mais burros (ou mais preguiçosos) são os que se encontram no topo. A faculdade não devia estar a preparar adultos para entrarem na vida activa? Não devia promover a meritocracia? Não! Porque estamos em Portugal e, quando esta gente entrar no mercado de trabalho, vai perceber que, em demasiadas empresas, o mérito está sobre-valorizado e há formas muito criativas de conseguir ser promovido. Além disso, há muitas situações em que a antiguidade é um posto.
Mas a praxe em si, não tem de ser necessariamente humilhante. Em 2012, no ISCSP (que por acaso até foi a minha faculdade), foi organizada uma praxe solidária: http://www.iscsp.utl.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1237&catid=157&Itemid=398. Sim, é possível integrar os novos alunos e organizar actividades que marquem a sua entrada no ensino superior sem estupidez, humilhação e demonstrações de frustração sexual!
Outra coisa que reparei é que os maiores adeptos da praxe e da tradição académica são os desterrados. Por desterrados entendam-se os alunos que estão a estudar fora da sua terra.
Os alunos que não conhecem ninguém na cidade onde vão estudar, deixaram os amigos noutras faculdades e a família na terra, estão sedentos de integração e sujeitam-se às palhaçadas todas para conhecerem mais gente e criar vínculos com os outros estudantes na mesma situação.
Para quem não sai da sua terra para entrar na faculdade, o ensino superior não passa duma nova etapa. Tal como foi mudar de escola no secundário e tal como será mudar eventualmente de faculdade no mestrado.
Dito isto, a praxe não é necessariamente má. Tudo depende de como for feita. Se pegarem nos caloiros todos e mobilizarem o espírito de manada para acções de solidariedade ou de responsabilidade social, é possível integrá-los e ajudá-los a fazer novas amizades.
O problema é que os valores - submissão cega, espírito de manada acéfala, tolerância à humilhação, abusos de poder a roçar o despotismo - que a maioria das praxes transmitem não são os valores que queremos que os jovens adultos tenham quando entrarem no mercado de trabalho.
Será que dá para deixarem de ser acéfalos?

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