domingo, abril 27, 2014

25 de Abril - a fuçanga 40 anos depois

Para celebrar o 25 de Abril choveram cravos no Terreiro do Paço.
Não havia uma multidão mas a Praça do Comércio estava composta.
Assim que o helicóptero começou a lançar cravos e a multidão percebeu a direcção do vento, foi a corrida ao cravo! São cravos à gosma!
Tugas a atropelaram-se para apanharem mais flores. A celebração do 40º aniversário da Revolução ficou marcada pela fuçanguice. Era vê-los com molhos de cravos na mão, radiantes porque tinham conseguido atropelar o próximo e apanhar mais flores gratuitas.
- Para quê? - questionava-me eu que tenho a mania estúpida de tentar arranjar explicação para tudo. Ora, para quê? Raio de pergunta... Porque é à borla! Não interessa que sejam alérgicos a flores ou que aquilo morra num instante e acabe no caixote do lixo. Interessa que não tiveram de pagar nada e quem conseguir arrecadar mais borlas, é mais esperto que o próximo.
Porque estas pessoas são aquilo a que chama vulgarmente chico-esperto. São aqueles tugas que se gabam de fugir aos impostos, são os que fazem 50 km para ir ao supermercado que está com uma promoção de 10% em cartão e gastam mais dinheiro em gasolina do que o valor que pouparam na promoção, são os que aproveitam a promoção daquela viagem ao Brasil em Agosto que fica muito mais barata que a viagem da vizinha no Inverno passado... Basicamente, estes chico-espertos não pensam a longo prazo, não planeiam, não pesam os prós e os contras...
E depois? Depois a reforma é miserável porque declaravam o ordenado mínimo e o patrão pagava o resto por baixo da mesa. Depois o subsídio de desemprego é metade do ordenado porque a empresa era tão fixe que pagava um ordenado baixo mas inventava uma ajudas de custo impecáveis! Depois o carro só sai de casa no início do mês porque a dia 15 já não há dinheiro para a gasolina. Depois as férias foram uma porcaria porque no Brasil é Inverno em Agosto e mais valia ter ido para a Fonte da Telha que ficava bem mais barato.
O 25 de Abril foi há 40 anos mas ainda não conseguimos recuperar todo o atraso de décadas de ditadura e atraso civilizacional. As gerações de analfabetos que viviam em condições sub-humanas já tiveram netos nascidos com qualidade de vida, liberdade e educação, mas as mentalidades são sempre as últimas a mudar.
Enquanto estes tugas não perceberem que o "desenrasca" não é uma virtude, continuarão a dever muito ao civismo.
Desenrascar significa livrar-se de dificuldades com facilidade. Isso é bom... mas o que era mesmo óptimo era prever as dificuldades para as evitar e não ter de se desenrascar. A isso chama-se inteligência.

1 comentário:

Anónimo disse...

A educação cívica dos portugueses está ao nível "lixo", apesar de 40 anos de democracia. Nas escolas ainda houve uma área curricular com esse nome, no intuito de sensibilizar os alunos para o civismo. Mas, quando em casa não existem bons exemplos é difícil as crianças seguirem-nos. Contudo, a esperança é a última a morrer...