sábado, agosto 02, 2014

Ter vergonha de ser Português

Estamos em Agosto, mês dos emigrantes regressarem à terriola onde nasceram e brindarem os locais com situações geradoras de anedotas como a do "Jean-Pierre, tu vas tomber".
Eu também estive de férias mas, como ainda não emigrei, fiz o caminho inverso e fui até aos States. Por acaso não andei por Newark, o bastião da emigração tuga nas terras do Tio Sam, mas há Portugueses espalhados por todos os Estados, aparentemente.
Na Florida, além de Sul-Americanos, também há tugas. Conheci lá uma luso-descendente. Anda na casa dos 40 anos e é filha duma açoriana que, aparentemente se casou com um americano depois de emigrar. Perguntei-lhe se percebia ou se falava Português. Não sabia uma palavra. Nunca tinha estado em Portugal e nem sabia muito bem onde ficam os Açores. São ilhas, expliquei-lhe. Nós somos de Lisboa, a capital, em Portugal Continental. Sorriu. Não devia fazer a mais pálida ideia do que eu estava a falar. Em suma, a mãe desta senhora, apesar de ser Portuguesa e falar certamente Português, não ensinou uma única palavra à filha, nunca deve ter regressado a Portugal e a sua Pátria deixou de ser um assunto. Há pessoas que prezam a sua herança cultural e orgulham-se da sua nacionalidade. Transmitem esta herança aos filhos para que não se esqueçam de onde veio o seu ADN. Não é o caso da mãe desta senhora.
No aeroporto de Miami encontrei vários emigrantes Portugueses. Famílias inteiras com crianças que já nasceram além-fronteiras. As avós e as mães falam Português. As crianças respondem-lhes em inglês. Mesmo que não falem um Português perfeito, conseguem perceber. Mas já são americanas.
Quando digo que têm vergonha de serem Portugueses, falo das gerações mais velhas. Dos que emigraram.
Caminhando numa das loja de duty-free, ia um casal nos seus 30 anos com duas crianças pequenas. Conversavam em Português. Pararam à minha frente, junto à caixa. Eu aguardei. Quando vi que a senhora se mantinha imóvel após os clientes serem atendidos, dirigi-me a ela, em Português, e perguntei se estava na fila:
- What? - Pergunta-me a criatura. 
Acho que não consegui disfarçar o meu ar impaciente, apontei para a fila e levantei uma sobrancelha como se dissesse, "Estás na p*** da fila?!?!". Acho que a minha linguagem corporal foi bastante óbvia porque recebi um aceno de cabeça, negando estar na fila com um ar cabisbaixo. Responder-me em Português? Jamais. O que é que me terá passado pela cabeça para achar que ela falava Português? Afinal, estávamos nos Estados Unidos da América!
Ter vergonha da sua própria nacionalidade é tão disparatado como ter vergonha da profissão honesta do pai ou da mãe. Mas até se percebe. Muito tuga acha muito mais prestigiante ser aparentado com o Isaltino Morais que filho dum padeiro da Pastelaria Versailles.

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