sábado, maio 30, 2015

Turistas e viajantes

Antigamente não era assim tão fácil viajar. Antes das low-cost os preços dos bilhetes de avião eram proibitivos. Uma viagem de médio curso custava o mesmo que ir para o Sudeste asiático hoje em dia.
Com a diminuição dos preços das tarifas, aumentou naturalmente o número de pessoas a viajar. Por isso, já não basta viajar. Já não basta ter estado em todos os continentes nem conhecer 50 países. Ser turista agora tem conotação pejorativa. Isso de ir a Paris e ver a torre Eiffel e subir ao Arco do Triunfo é para bimbos. Um verdadeiro viajante nem vai a Paris. A cidade por si só é demasiado turística. Agora o que vale é ser um viajante. É desprezar todos os ícones duma cidade, é viver como os locais, privar com os locais, comer como os locais...
Como alfacinha, posso tentar explicar o que pode ser entendido como ser um verdadeiro viajante em Lisboa: nunca subir ao Castelo de São Jorge, não meter os pés em Belém a menos que haja Outjazz, ignorar Alfama a menos que seja a noite de dia 12 de Junho, desprezar todos os transportes públicos especialmente eléctricos e aproximar-se da Baixa só depois do anoitecer. Durante o Verão só se podem alimentar de sardinha assada com salada de pimentos. Qualquer variação pode ser considerada ofensa pública.
Será que é assim tão boa ideia armarem-se em locais para conhecerem uma cidade?
Há algum tempo alguém gozava com a nova obsessão das viagens e dizia que quem não viaja é menos pessoa. Há desenvolvimentos. Como quase toda a gente viaja hoje em dia, agora quem viaja como um turista é que é menos pessoa:


Se forem a um país pobre, não vale ficar num hotel confortável e de qualidade. Ir a restaurantes caros? Jamais (ler em francês, faxavor)!
Eu sou completamente a favor de descobrir coisas novas. Aliás, nem faz sentido viajar se não for para termos contacto com novas realidades. Mas pôr um rótulo nas pessoas que gostam de visitar os clichés todos e são demasiado tímidas para meter conversa com desconhecidos?
Não me canso de apregoar todas a vantagens de se viajar sem mapa e sem plano e andar perdido a descobrir sítios novos. Mas será que dá para não implicarem com as pessoas que gostam de planear tudo ao segundo? São viajantes piores por isso?
Sabem o que é um mau viajante? É alguém que vai a uma cidade gigante num fim-de-semana, faz todas as refeições no Mcdonald's, tira 50 fotos em frente às atracções turísticas e enfia-as no Facebook para dizer a toda a gente que viajou. Posers!

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